Flamengo campeão da Libertadores: um drama em três atos
A maior invenção do homem é o futebol. Sei que isso é um exagero, mas hoje é o que me parece, o que todos nós aqui em Lima sentimos.
Anos e anos, décadas e décadas, gerações à espera de um novo título da Copa Libertadores, um feito que somente a esquadra fantástica de Zico tinha conseguido com as cores rubro-negras.
Os deuses do futebol, que tem lá suas regras, definiram que somente atuando de uma forma que pudesse mudar novamente o futebol brasileiro, como fez o time de Zico, Júnior, Leandro, Andrade e Adílio, poderíamos ver o feito repetido com jogadores trajando o manto sagrado.
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Diego e Filipe Luís, do Flamengo – Foto: Divulgação |
Sob o comando de “Mister”, o time de Rafinha, Felipe Luiz, De Arrascaeta, Éverton e Gerson tem mostrado que é possível dar espetáculo, obter resultado e jogar com alta intensidade, para o bem do futebol, tão maltratado sob a batuta de nossos “professores” brasileiros.
Sem zica, com a magia eterna de Zico, sofrendo e se alegrando com os jogadores que agora honram o time que tanto ama, a partida se deu em três atos dramático.
O Flamengo não está acostumado com moleza, e o sofrimento veio. Um a zero para o River, aos treze minutos.
Muitos jogadores nervosos, mas a torcida não deixava de apoiar, cantando todos os cânticos possíveis, como se fosse o décimo-segundo, o décimo-terceiro e quantos mais jogadores fossem necessários para preencher os espaços deixados em campo.
Ao lado de peruanos que torciam pelo Flamengo, os brasileiros não reconhecíamos o time que encantou nas últimas fases da Copa.
Sofríamos, sofremos por todo o primeiro tempo, esperando que ele logo terminasse, para que o time pudesse se recobrar e nós pudéssemos tomar um pouco de ar, pois estava, sim, um “ai, Jesus”.
Por falar em divindade, o que cabe bem para um esporte que incita paixão, une pessoas diferentes nos mais variados aspectos, no segundo tempo, melhoramos graças a um intervenção mais que especial de Mister, que não gosta de ser chamado de Jesus, mas que em poucos minutos passaria a habitar o rol de titãs e deuses rubro-negros.
Como um mestre, ele veio para dar lições aos incrédulos técnicos brasileiros e sul-americanos. Nada de futebol reativo, como o amor ao um a zero de Gallardo.
Saem Gerson e Arão e, no lugar, Diego e Vitinho, melhorando muito o time sobretudo pelo primeiro, o capitão que o técnico tinha escolhido, mas que deixara o time titular, de início pelo mérito dos outros dois “volantes”, e, depois, por uma séria contusão, da qual ninguém acreditava ser possível se recuperar ainda este ano. Recuperou-se e foi recompensado por seu esforço.
Do outro lado, Gallardo, pedindo para a torcida do River já gritar campeão nos últimos minutos, foi punido severamente pelos deuses do futebol, que andavam de mau humor com a falta de arte entre as quatro linhas.
Creio que, tendo pelo menos um desses deuses, um dos maiores, Zico, devemos ter confundido os céus, pois para os argentinos, que possuem o Papa, a vitória já era certa.
De Arrascaeta, Diego, Bruno Henrique, Felipe Luiz e muitos outros, inspirados por toques mágicos na bola, de passe em passe, encontraram Gabigol, que, como um artilheiro das decisões, marcou, tirando um grito sufocado da garganta.
Mal nos recuperávamos da emoção, o mesmo Gabigol, anjo-torto, um gauche do futebol, marca de novo, libertando de vez os flamenguistas da maldição do “cheirinho”, dos sofrimentos causados por más gestões e da pressão que só jogadores do Flamengo sofrem.
Que bom para o futebol que deu Flamengo, que prêmio ao talento individual e coletivo, à técnica dos seus onze, doze, quinze titulares, ao intelecto e carisma de Jesus, e à torcida, aliás, que torcida é essa?
A pressão da torcida virou catarse, e a euforia do estádio, da torcida lá dentro, era a euforia de milhões no Brasil que assistiam pela TV.
A América do Sul toda, representada pelo afável e gentil povo peruano, ao fundo, ouvia os cânticos e os gritos de uma torcida fanática, de uma nação à parte no Brasil e no mundo.
É nação, é religião, é união, é uma força estranha que une sim. E, se agora a torcida pede o mundo de novo, repetindo isso há anos como um mantra, tanto que até o Liverpool já está no Mundial, podemos duvidar?
Não sei, por hoje só queremos comemorar e comemorar, em meio ao nosso povo e a um povo tão representativo da América do Sul, que também precisa de libertadores, como o título que tanto e por tanto quisemos.
Daniel Giotti de Paula, rubro-negro