Olá, Zico! Mandaram te entregar esta carta
Resolvi, depois de tantos anos passados do meu nascimento, relatar um pouco dos meus sentimentos. Sentimentos profundos, muitas tristezas, mas certamente muitas alegrias.
Iniciei minha vida intitulado de Maior. Ser conhecido como Maior sempre me trouxe orgulho, mas logo no meu primeiro ano senti o choro de muitos que amava. Senti e entristeci com algumas injustiças. Os celestes por aqui estiveram e, infelizmente, nada pude fazer, pois eu era estático e profissional. Nem aqueles canarinhos maravilhosos puderam. Pensei: meu reinado mal começou e já terminou? Fui concebido para ser palco de alegria para o meu povo e estou compartilhando tamanha tristeza. Aprendi ao longo dos anos que não posso me vestir de cores, pois estou a serviço de todas, mas, graças a Deus, me foi permitido ser Brasil.
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Zico entrando em campo no Maracanã – Foto: Divulgação |
Bem, hoje pedindo licença ao Anjo das Pernas Tortas, ao Rei Negro que me fez balançar no seu milésimo gol e a tantos outros ídolos consagrados, preciso e devo homenagear alguém muito especial. Lembro muito bem daquele garotinho de oito anos, que na época, ano de 1961, aqueceu uma ínfima parte do meu corpo, da minha imensidão de concreto. Sim, foi neste ano que o alfaiate Antunes, de posse da sua cadeira perpétua, levou aquele molequinho loiro para ver Flamengo 2 x 0 Corinthians, jogo final pelo torneio Rio-São Paulo.
Desculpe, mas naquela época, eu não pude ouvir a sua voz ecoar, pois no meio da multidão rubro-negra, o som era muito pequenino, imperceptível. Eu também era uma criança da sua faixa etária, tinha apenas onze anos de idade. Confesso que tive um pressentimento muito forte. De uma forma impressionante e muito clara, senti o seu coração bater muito forte por várias vezes, como se apenas a sua pulsação estivesse lá. Estranho sentimento de momento, futuramente reconhecido como divino e explicável.
O tempo foi passando e aquele torcedor menino sempre aparecia. Aquela voz continuava sem muita força, sempre perfazendo uma milésima parte, correspondente a Nação Rubro-Negra, diga-se de passagem, bem diferenciada, a maior de todas.
Em 1971, dez anos após o nosso primeiro encontro, recebo a resposta para todos os meus “estranhos” sentimentos. O menino havia trocado de lugar e logo aconteceu. Meu amigo não gritou, tampouco falou, mas seu toque na bola iniciou o estouro alegre daquela mesma torcida. Milhares de pessoas ecoando o grito de gol. Gol do Zico! Sim, o meu antigo amigo me foi divinamente revelado. Seu nome era Arthur, Zico, que depois virou o Galinho de Quintino. Que mundo! Que reviravolta! Uma pequenina voz regida pelo saudoso Dida, regendo a maior orquestra do mundo. Mengo! Meeeengoooo! Mengooo! Zico! Ziiiico! Ziiico!
Zico para a Nação Flamenguista. Amigo Zico para mim, pois nos tornamos melhores amigos. Posso dizer que fomos, ou melhor, somos muito importantes um para o outro. Dois gigantes que se misturam e fundem em suas belas histórias. Já fui remodelado, restaurado, reconstruído, enfim. Você também sofreu algumas cirurgias, algumas decepções, muitas alegrias, formou uma linda família, enfim, o tempo está passando. Hoje meu amigo faz 65 anos. Nasceu na casa 7 e imortalizou o 10 do Manto Sagrado. Fez-me sacudir por várias vezes. No ano passado, dia 27 de dezembro, estivemos juntos, revivendo nossas paixões, fazendo o que mais gostamos. Você vigorante, agitando a massa presente. Eu, reluzente, palco da sua obra e colocando minhas articulações, juntas de dilatação, para funcionarem. Confesso, haja molejo para aguentar tantas pessoas e seus intermináveis saltos.
Os projetistas me fizeram grande e você me tornou grandioso. Você me fez explodir oficialmente 334 vezes pelo grito maior, mas muitos milhares de vezes apenas com a sua ilustre presença e outras tantas com suas jogadas geniais. Mesmo profissionalmente imparcial confesso que várias foram às vezes que pensei em me esticar, fazendo entrar aquelas bolas nas traves. Contive-me pela nossa trajetória limpa. Seria desonestidade!
Você conseguiu imortalizar até aquelas redes, pois as bolas investidas nos 90 graus superiores das balizas sempre tiveram uma plasticidade diferenciada. Eram os movimentos “estufa e escorre”.
Parabéns meu amigo pelos seus 65 anos. Aguardo você em Dezembro mais uma vez. Ano passado você saiu quase nu, deixou chuteiras, meias, camisa, cuidado este ano. Você continua o mesmo de sempre, um ídolo humilde e fortalecido pelo tempo, assim como eu, pois o concreto fica mais resistente com o passar dos anos. Tenho a marca dos seus pés, sua estátua, algumas relíquias. Tenho a lembrança daquele nosso primeiro encontro. Tornamo-nos mundialmente grandiosos. Somos senhores na cronologia, crianças nas emoções e recordações. Acha que não vi aquela “caneta” do dia 27? E aquele passe para o Imperador? Nem vou falar dos gols. Você literalmente mexe comigo!
Saúde meu amigo! Feliz aniversário Galinho!
Ass.: Maracanã
Ps.: Enviarei esta carta por uma destas pequenas vozes.
Saudações a todos!
Henrique Moraes