Recordar é viver… E o Pet acabou com você
*Por Allan Titonelli Nunes, procurador da Fazenda Nacional e rubro-negro.
A final do campeonato carioca de 2001 colocava, mais uma vez, Flamengo e Vasco em confronto. Assim como das outras vezes, o Vasco chegava à final com um time melhor e com menos turbulências extracampo. Helton, Alexandre Torres, Pedrinho, Juninho Paulista, Viola, Euller e Romário compunham a base cruz-maltina, com Joel Santana no comando, enquanto do lado rubro-negro tínhamos os jovens Júlio César e Juan, além de Gamarra, Beto, Petkovic e Edílson, treinados por Zagallo. O Vasco tinha a vantagem do empate, por ter feito mais pontos na soma de todo o campeonato. Como o primeiro jogo terminara com vitória de 2 x 1 para o Vasco, bastava uma derrota por um gol de diferença para o time da colina se sagrar campeão.
Nesse ambiente os flamenguistas até estavam resignados com a possibilidade de perder o título, satisfeitos com a sequência de dois títulos seguidos em cima do seu maior rival. Já os vascaínos estavam eufóricos com a possibilidade de comemorar o título em cima do Flamengo. Assim, um grupo de amigos, entre flamenguistas e vascaínos, combinam de ver o jogo em um bar de Niterói, chamado Barkana, ponto de encontro tradicional nos dias de futebol.
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Petkovic – Arte: Divulgação |
Romário e Gamarra não jogaram a final por estarem contundidos. No início do jogo Juninho domina no meio de campo e lança Viola, que sai na cara de Júlio César e chuta, o qual faz linda defesa. O Vasco poderia ter matado o jogo logo naquela jogada, desperdiçando ainda outra conclusão em chute de Juninho. Enfim, parecia que o Vasco daria fim ao jejum de títulos em cima do Flamengo, cujo último fora o campeonato carioca de 1988, gol de Cocada, e que Breno recordara ao vir vestido com a mesma camisa da época, branca de listra preta em diagonal com patrocínio da Coca-Cola. Empolgado com a blitz inicial falou que iria deixar de torcer se o Vasco perdesse o título, de tanto confiante que estava.
Dedé, outro vascaíno, canta, para silêncio dos flamenguistas, que mandam ele calar a boca em sequência. Todavia, de imediato, Beto recebe no meio, passa por um jogador do Vasco e dá a bola para Cássio, lateral-esquerdo do Fla, que corta a jogada dentro da área e recebe falta. Pênalti para o Flamengo. A torcida grita, Helio e Allan se levantam para comemorar. Os vascaínos reclamam indignados. Edilson pega a bola e converte, porém ainda faltava mais um gol para o Mengão.
O Vasco retoma o controle do jogo e Euller marca um gol, mas estava impedido. Próximo do fim do primeiro tempo Alessandro dá um chutão na lateral, após ser pressionado, e a bola sobra para Viola, que finta Juan em um giro de corpo, e passa para Juninho empatar a partida. Festa dos vascaínos. Breno e Dedé saem pulando no bar e ficam atazanando os flamenguistas no intervalo.
O segundo tempo começa frenético, com Pet fazendo grandes jogadas, em uma delas dribla pela esquerda e cruza no segundo pau, na medida para Edilson fazer mais um gol, agora de cabeça, sem chance para Helton. É a vez dos flamenguistas comemorarem novamente.
Em seguida o jogo fica franco, pois o Mais Querido precisava de mais um gol, com o Vasco conseguindo achar espaços pelo lado direito da defesa do Flamengo, criando muitas oportunidades com Euller e Juninho, os quais são parados pela muralha Júlio César, talvez o melhor em campo, junto com Edílson, até aquele momento. O jogo já caminhava para o final quando Leandro Ávila recebe no meio e toca para Edilson, que sofre falta, um pouco longe da risca da meia lua.
Naquele instante a câmera foca em Alessandro no banco rezando, Joel desesperado aos berros, e Zagallo passando confiança ao pegar seu Santo Antônio nas mãos. Todos os flamenguistas com o mesmo sentimento: é agora. A torcida levanta as mãos cantando pausadamente “mengooo, mengooo, mengooo…”, passando energia para Petkovic, que pega a bola, beija, e ajeita com carinho. Na sua cabeça passa um filme, como nos treinos, em que pensa ser a última bola do jogo. Edilson, mesmo brigado com o craque sérvio, diz vai que é sua, a bola vai entrar. Ao mesmo tempo a barreira é formada por um Helton preocupado, com sete jogadores. O narrador relata que já se passaram 43 minutos do segundo tempo. Pet corre para a cobrança, bate forte, com curva e perfeição, a barreira pula, o goleiro também salta, se esforça, mas a bola faz uma trajetória única, entrando no ângulo esquerdo do goleiro, para delírio da torcida e de Pet, que corre eufórico e cai na lateral do campo, com os jogadores pulando por cima, um após o outro, em uma cena eternizada até hoje na memória dos torcedores. O narrador grita gol estridentemente e logo em seguida puxa é campeão, na verdade tricampeão. Visto o gol pelo replay observa-se a grande curva e plasticidade da trajetória da bola. Batida perfeita, lá onde a coruja dorme ou no gogó da ema, como diria Silvio Luiz.
Lá no Maracanã e ali no bar todos passaram a cantar “tricampeão, tricampeão…” seguido de “ô, ô, ô, vice de novoooooo!!!!” “Dança, dança, dança da bundinha, no Maracanã bacalhau virou sardinha!!!” Enquanto isso Breno e Dede estavam desolados e foram saindo de fininho. Breno ensaia pagar a promessa, pegando sua camisa e rasgando no meio da rua, indignado com a nova derrota. Como a rua estava tomada de torcedores, nenhum carro mais passava, alguns flamenguistas observam aquele protesto e pegam a camisa do Vasco para colocar fogo ao grito forte de “ô, ô, ô, vice de novoooooo!!!!”. Vendo aquela camisa em chamas, de longe, Breno chora, de raiva, afinal parecia que o título tinha escorrido pelas mãos. Todavia, apesar da promessa ele não parou de torcer para o Vasco, sofrendo outras derrotas… pois faz mais de 30 anos que o Vasco não comemora um título em cima do Flamengo.
Essas e outras crônicas fazem parte do livro “19 81: Ficou Marcado na História”, que pode ser acessado no link (https://www.ficoumarcadonahistoria.com).